Laura Oliveira Spitzkopf
O Brasil é considerado a maior potência
hídrica do planeta, porém passou a viver, a partir de 2014, a maior crise
hídrica de sua história. Com um problema grave de seca e também de gestão dos
recursos naturais, o país vem apresentando níveis baixos em seus reservatórios
em épocas do ano em que eles costumam estar bem mais cheios.
Para
entender por que um país com tanta água passa por essa crise, é preciso observar
algumas questões geográficas concernentes ao território nacional.
Em primeiro lugar,
embora o país possua as maiores reservas de água por unidade territorial do
planeta, é preciso destacar que elas estão desigualmente distribuídas no espaço
geográfico brasileiro. A região Norte, notadamente a Bacia do Rio Amazonas é aquela que
possui a maior concentração de água no país, tanto pelo rio em questão quanto
pela presença do Aquífero Alter
do Chão, o maior em volume d'água.
Em
segundo lugar, é preciso entender a questão demográfica.
A maior parte da população brasileira não reside nos pontos onde a água
encontra-se disponível de forma mais abundante, pois há uma concentração
populacional muito elevada nas regiões Sudeste e Nordeste, respectivamente, embora
o Brasil seja o país com a maior quantidade de água per capita do mundo, a sua
disponibilidade é má distribuída ao longo do território. A região Norte, que
apresenta as menores densidades demográficas, possui cerca de 70% das reservas nacionais.
Para se ter uma ideia dessa relação, segundo o Serviço Geológico do Brasil,
apenas 1% de toda a vazão do Rio Amazonas seria suficiente para atender em mil
vezes o que necessita a cidade de São Paulo. Todavia,
é justamente onde existem menos reservas de água no país que reside a maior
parte da população e também onde acontece a maior parte das atividades
econômicas – industriais, comerciais e agrícolas. Assim, os sistemas de
abastecimento ficam cada vez mais sobrecarregados, tornando-se vulneráveis a
qualquer grande seca que ocorra.
Esse panorama
contribui consideravelmente para o problema em questão, haja vista que a
exploração dos recursos hídricos da Amazônia é totalmente inviável em virtude
dos grandes custos de transporte e também pelos iminentes impactos naturais,
que podem comprometer as reservas de água então disponíveis.
E ainda deve-se considerar que existem
também as questões referentes à utilização e gestão dos recursos
hídricos no país, existem problemas de gestão pública e
planejamento de infraestrutura, pela Constituição Federal de 1988, cabe aos
governos estaduais a missão de gerir e administrar a captação e distribuição de
água, embora o governo federal também precise atuar por intermédio do
fornecimento de verbas públicas e obras interestaduais. Nesse sentido, alguns
governos, por questões administrativas ou até políticas, podem apresentar
algumas falhas, principalmente no que se refere ao planejamento no manejo dos
recursos hídricos.
O ano de
2014 representou um marco para o Brasil, sobretudo para a região Sudeste e, em
menor grau, para as regiões Nordeste e Centro-Oeste. Como resultado de uma
forte seca e uma série de erros de planejamento, instalou-se uma verdadeira crise da água no
país, o que gerou a queda dos níveis dos reservatórios de abastecimento de
grandes cidades, com destaque para a cidade de São Paulo.
São Paulo que é o
Estado mais populoso do país, apresentou uma grande falta de água. A seca afetou
a vida de dezenas de milhões de pessoas. O reservatório do Sistema
Cantareira, o principal da cidade, apresentou sucessivos recordes de baixas em seu volume, além
da má distribuição dos recursos hídricos e dos problemas de gestão no
território nacional, a cidade de São Paulo, que, embora
nascida na confluência de vários rios, viu a poluição tornar imprestáveis para
consumo as fontes próximas e tem de captar água de bacias distantes, alterando
cursos de rios e a distribuição natural da água na região.
Atualmente, os
sistemas de abastecimento de São Paulo sofrem baixas históricas, com destaque
para o próprio sistema Cantareira, que já teve de liberar suas reservas do
primeiro e do segundo volume morto. Houve um grande racionamento de água que
afetou toda a população de todas as classes, além da construção de novas
barragens e realização de obras de transposição local.
Vale destacar que
em 2004, na renovação de sua concessão, a SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) já sabia que a
quantidade limitada de água existente, bem como a grande dependência em relação
ao sistema Cantareira – o maior da região –, seria um grave problema nos anos
posteriores. Por isso, se obras de abastecimento tivessem sido realizadas,
talvez o problema pudesse ter sido evitado.
A falta de água no
Brasil não afeta somente a disponibilidade de água tratada nas residências. As
indústrias e a agricultura (os principais consumidores) são os setores que mais
sofrem com o problema, o que acarreta impactos na economia como um todo –
lembrando que a maior parte das indústrias do país está justamente na região
Sudeste. Além disso, cabe a ressalva de que o principal modal energético do
país é o hidrelétrico, que possui como ponto negativo
justamente a dependência em relação à disponibilidade, de modo que uma seca
extrema pode levar o país a um racionamento de energia também.
BIBLIOGRAFIA:
PENA, Rodolfo F.
Alves. "Escassez de água no Brasil"; Brasil Escola.
REBOUÇAS. Aldo da C. Água no Brasil: abundância,
desperdício e escassez. .
Gazeta do Povo (23 de janeiro de 2015) - Sudeste
vive a pior crise hídrica em 84 anos.
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