domingo, 5 de junho de 2016

O caso das "secas" no Nordeste brasileiro


“A vida aqui só é ruim/Quando não chove no chão/Mas se chover dá de tudo/Fartura tem de montão/Tomara que chova logo /Tomara meu deus tomara/Só deixo o meu cariri /No último pau-de-arara.”

A música “Ultimo Pau de Arara”, de autoria do grande mestre sanfoneiro Luiz Gonzaga, faz referencia à escassez de água que atinge, especialmente, a região Nordeste do Brasil. Popularmente conhecido como “seca”, a problemática remonta aos tempos de Dom Pedro II, que, na época, chegou inclusive a afirmar que venderia as joias da coroa, fato que não aconteceu, para reverter o quadro.

O referido fenômeno de estiagem é causado, principalmente, por um fator natural, que é o de a região está localizada numa área em que as chuvas ocorrem poucas vezes durante o ano. Esta área recebe pouca influência de massas de ar úmidas e frias vindas do sul. Logo, permanece durante muito tempo, no sertão nordestino, uma massa de ar quente e seca, não gerando precipitações pluviométricas (chuvas). Há, no entanto, outros fatores que contribuem para agravar a situação, como os desmatamentos de florestas, por exemplo, cada vez mais frequentes.

Além do problema climático, as secas trazem consigo sérios problemas sociais. A agricultura e a pecuárias, importante fontes econômicas daquela região, ficam extremamente prejudicadas nessas épocas. Assim, a seca é um dos maiores geradores de fome e de miséria entre a população sertaneja. Muitas vezes, as pessoas precisam andar durante horas, sob sol e calor forte, para pegar água, que, não raramente, se encontra suja e contaminada. Com uma alimentação precária e consumo de água de péssima qualidade, os habitantes do sertão nordestino acabam vítimas de muitas doenças.

O problema foi identificado há muito pelas autoridades, tanto que o artigo 21, inciso XVIII da Constituição Federal brasileira estabelece que entre as competências da União está a de “planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas, especialmente as secas e as inundações”. Outra atitude legislativa importante foi a criação do “Polígono das Secas”, em 13 de setembro de 1946, apesar de que somente a partir do Decreto-Lei nº 63.778, de 11 de dezembro de 1968, foi regulamentada a inclusão de municípios no Polígono das Secas. A Lei nº 4.239, de 27 de julho de 1963, por sua vez, “estatuiu que o município criado com desdobramento de área de município incluído no Polígono das Secas, será considerado como pertencente a este para todos os efeitos legais e administrativos”.

O Decreto-Lei de nº 63.778, de 11 de dezembro de 1968, delegou ao Superintendente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) a competência de declarar, observada a legislação específica, quais os municípios pertencentes ao Polígono das Secas. Esse Decreto-Lei regulamentou e esclareceu que “a inclusão de municípios no Polígono, somente ocorreria para aqueles criados por desdobramento de municípios anteriormente incluídos total ou parcialmente, no mesmo Polígono, quando efetuados até a data da lei regulamentar”, ou seja, de 30 de agosto de 1965 onde foi declarada como lei.

A SUDENE foi substituída pela Agência de Desenvolvimento do Nordeste (ADENE), através da Medida Provisória nº 2.146-1, de 04 de maio de 2001, alterada pela Medida Provisória nº 2.156-5, de 24 de agosto de 2001, e instalada pelo Decreto nº 4.126, de 13 de fevereiro de 2002. Em 03 de janeiro de 2007, foi editada a Lei Complementar nº 125 - que instituiu a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), alterando a Lei nº 7827/89 e a Medida Provisória nº 2.156/2001. A nova autarquia vinculada ao Ministério da Integração Nacional substituiu a ADENE, que foi extinta pela mesma Lei Complementar nº 125/2007.

Através da delimitação dos espaços mais atingidos e da criação de órgãos específicos, além do incentivo à construção de grandes açudes, da perfuração de poços tubulares, da construção de cacimbas, etc, aparentemente, o governo tem tentado combater a questão. Estas atitudes, no entanto, têm se mostrado insuficientes, pois a corrupção, o coronelismo e a chamada “indústria da seca” - termo utilizado no Brasil para designar a estratégia de certos segmentos das classes dominantes que se beneficiam indevidamente de subsídios e vantagens oferecidos pelo governo a partir do discurso político da seca -, têm impossibilitado a resolução definitiva do problema. Enquanto isso, a população nordestina continua, até hoje, sofrendo as consequências de um problema que, sabe-se, poderia ser evitado ou, pelo menos, amenizado, não fosse a questão a pouco citada. A situação, porém, se repete com frequência. Em 2015, quase mil municípios decretaram situação de emergência por conta da seca. 

Thaís Machado

Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Seca_no_Brasil
http://www.suapesquisa.com/geografia/seca_nordeste.htm
http://www.cecs.unimontes.br/index.php/pt/semiarido/poligono-das-secas.html
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/10/seca-deixa-quase-mil-cidades-do-nordeste-em-situacao-de-emergencia.html

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